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Psicanálise: o que é e seus principais autores

A psicanálise consiste num método que, segundo Freud, destina-se a uma dupla função que possuem uma coincidência fundamental em seu formato: o tratamento e...

Psicanálise: o que é e seus principais autores
Psicanálise: o que é e seus principais autores (Foto: Reprodução)

A psicanálise consiste num método que, segundo Freud, destina-se a uma dupla função que possuem uma coincidência fundamental em seu formato: o tratamento e a pesquisa. Enquanto tratamento, busca através da técnica da associação livre fazer com que algo do inconsciente possa vir a ser dito, e consequentemente, enfrentado. Logo, a psicanálise parte do pressuposto de que somos sujeitos divididos e que vivemos conflitos estruturais entre nosso desejo consciente e nossas aspirações éticas, estéticas e morais, cujas resoluções possíveis são vividas como sintomas, atos-falhos, chistes e sonhos. Logo, para que possamos realizar um enfrentamento daquilo que excede nossa capacidade consciente de consideração, necessariamente devemos nos implicar num processo que é, sobretudo, investigativo. Trata-se, portanto, no caso da psicanálise de uma ciência que possui como traço diferencial a justaposição do tratamento e da pesquisa. Se, por um lado, é impossível fazer clínica sem investigação, por outro, é sim possível exercer a pesquisa psicanalítica sem que ela seja diretamente clínica. Podem surgir belos argumentos para uma pesquisa a partir da experiência clínica, mas a escuta psicanalítica pode ser exercida também em relação a fenômenos sociais, a narrativas escritas ou mesmo no âmbito da própria relação dos conceitos no interior do campo psicanalítico. E é justamente nesse ponto que temos uma divisão importante: a psicanálise não é um campo unitário. Ao contrário do campo da psicologia que é formado por uma série de teorias potencialmente contraditórias em si, sem uma conjunção central possível, a psicanálise permite que reunamos em torno da obra de Freud e da tese do inconsciente como sobredeterminante em relação à consciência uma espécie de chão comum. Mas há diferentes formas de transpor isso para a teoria e da teoria para a clínica. Sendo a obra de Freud significativamente extensa e com contradições internas importantes que demandam decisões autorais inclusive para a sua leitura e abordagem, é muito importante que possamos entender o que vem a ser os pós-freudianos e o seu papel na constituição do campo psicanalítico. De forma muito resumida, podemos dizer que um autor para ser considerado pós-freudiano precisa oferecer uma chave de leitura original para os textos de Freud e para as questões fundamentais da psicanálise a ponto disso criar diferentes modos de exercer a clínica psicanalítica, sem que isso derive em contradições éticas ou metodológicas a ponto de não reconhecermos mais como internas ao campo psicanalítico (sendo esse o caso notório do pensamento junguiano). Diríamos portanto que, para fins de resumo, os principais autores pós-freudianos são: Melanie Klein, Donald Winnicott, Sandor Ferenczi e Jacques Lacan. Obviamente não são os únicos, mas constituem pilares fundamentais de escolas que apresentam nuances teóricas e técnicas muito significativas. Muito abreviadamente, e com a finalidade de estimular o interesse na leitura e pesquisa dos mesmos, vamos tentar ressaltar o traço mais evidente de cada um desses projetos: Melanie Klein: a psicanálise kleiniana tem como principal característica a antecipação do complexo de Édipo, estabelecendo a relação objetal como ponto de partida para a reformulação da clínica. Nessa perspectiva, o fundamento epistemológico naturalista coloca em perspectiva os fatores inatos na constituição do eu, no reconhecimento do outro na relação objetal e em afetos fundamentais, tais como a inveja, a agressividade, o amor e a necessidade de reparação. Esses elementos se farão presentes na relação transferencial e servirão de guia para a escuta analítica. Donald Winnicott: a teoria winnicottiana possui como perspectiva epistemológica o empirismo, dando ênfase, portanto, no regime da experiência individual como fator predominante na separação entre a realidade interna e a externa. Por isso o brincar da criança assume um certo protagonismo na cena analítica. Trata-se, portanto, de uma releitura da psicanálise na qual a imaginação e a abordagem dos fenômenos transicionais (justamente aqueles que, por permitirem a manipulação de objetos identificados como sendo “não-eu” assumem um papel fundamental na distinção entre os regimes da realidade) recriam a clínica como um modo todo particular de acolhimento para as questões inconscientes. Sandor Ferenczi: pertencente à primeira geração de psicanalistas diretamente em contato com Freud, Ferenczi reorganiza uma teoria e clínica psicanalítica baseada na crítica de um certo déficit de experiência. Logo, a psicanálise ferencziana coloca em perspectiva a retomada de experiências marcantes na constituição do corpo, tendo o narcisismo e os fenômenos de demarcação do eu como elementos fundamentais da escuta analítica. Jacques Lacan: a psicanálise lacaniana tem como principal fundamento a tese do inconsciente estruturado como uma linguagem. Parte, portanto, de um modo de pensar que dá ênfase ao caráter negativo de possibilidade de apreensão direta dos fenômenos da realidade, colocando em perspectiva as funções da fala e sua reordenação no campo da linguagem. Conceitos como os de Real, Simbólico, Imaginário e suas teorias do sujeito e do significante visam proporcionar uma escuta baseada na prioridade da linguagem como modo de realização do desejo e do sujeito. Saiba mais em: https://www.institutoespe.com.br/